Escuta, fala, pensamento e imaginação: como aplicar o 4º Campo de Experiência na sua sala de aula?

16 de abril de 2026


Em poucas palavras: neste quarto texto da série sobre os Campos de Experiência da BNCC, exploramos como o campo escuta, fala, pensamento e imaginação atravessa o cotidiano da Educação Infantil. Para além de estimular a linguagem, ele estrutura a forma como a criança organiza ideias, cria narrativas e se reconhece como parte de um grupo.

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Escutar uma criança é entrar no instante em que o pensamento dela está nascendo

Na Educação Infantil, a linguagem não começa quando a criança formula frases longas, pronuncia tudo com clareza ou demonstra familiaridade com letras e palavras. Ela começa antes, no olhar que busca resposta, no gesto que pede continuidade, no som que tenta nomear alguma coisa, na história que ainda se organiza em pedaços. A criança fala com o corpo, com a voz, com a memória recente, com a imaginação que transforma o vivido e inventa o que ainda não aconteceu.

O Campo de Experiência “Escuta, fala, pensamento e imaginação” parte justamente dessa compreensão. Ele reconhece que a criança se constitui na linguagem e pela linguagem, em situações concretas de interação com outras crianças, com adultos, com livros, com cantigas, com narrativas e com os múltiplos textos que circulam em seu entorno.

Ao organizar esse campo, a BNCC convida o professor a olhar para a oralidade, para a escuta e para a cultura escrita como dimensões vivas do cotidiano. Planejar, aqui, é criar situações em que a criança possa ouvir, dizer, perguntar, lembrar, inventar, recontar, argumentar, imaginar e começar a perceber que a linguagem também pode ganhar forma nos livros, nos bilhetes, nas listas, nos cartazes, nas histórias e nas marcas que vê à sua volta. 

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O que caracteriza o campo de experiência “Escuta, fala, pensamento e imaginação”?

Esse campo reúne experiências ligadas à linguagem oral, à escuta atenta, à imaginação, à construção de narrativas e ao contato com a cultura escrita. Na prática, ele aparece quando a criança acompanha a leitura de uma história, participa de uma roda de conversa, cria enredos durante uma brincadeira de faz de conta, canta, recita, faz perguntas, reconstrói acontecimentos ou tenta registrar algo por meio de desenhos, marcas e escritas espontâneas.

Há, nesse campo, uma articulação delicada entre expressão, pensamento e repertório cultural. A criança amplia vocabulário ao ouvir histórias e conversar; organiza melhor suas ideias quando precisa contar o que viveu; cria novas hipóteses ao imaginar desfechos, personagens e situações; aproxima-se da escrita quando percebe que palavras, nomes, listas e textos têm função social e circulam em diferentes espaços.

Como esse campo aparece no cotidiano da sala?

As situações que formam esse campo de experiência já estão acontecendo. O papel do professor é reconhecê-las, sustentá-las e ampliar seu valor pedagógico.

Rodas de conversa como espaço de elaboração

Quando uma criança conta algo que viveu, comenta uma descoberta, faz uma pergunta ou tenta explicar um conflito, ela não está apenas “falando”. Está organizando o pensamento, escolhendo palavras, testando relações de causa e consequência, percebendo a escuta do grupo e se reconhecendo como alguém que tem o que dizer.

Histórias que abrem linguagem e imaginação

A leitura de histórias, poemas, parlendas e cantigas amplia repertório, introduz ritmos e estruturas narrativas, desperta perguntas e faz a criança experimentar outros tempos, vozes e cenários. Ao ouvir uma história, ela se aproxima da linguagem escrita, percebe o valor do livro como objeto cultural e aprende, pouco a pouco, a acompanhar sentidos, personagens e sequências.

Brincadeiras de faz de conta

Toda brincadeira simbólica é também um exercício de linguagem. A criança nomeia papéis, cria falas, inventa enredos, negocia regras, sustenta personagens. Ao brincar de mercado, casa, escola, viagem ou restaurante, ela mobiliza memória, imaginação e formas de comunicação que se tornam cada vez mais sofisticadas.

Canções, rimas e jogos verbais

Cantigas de roda, poemas, trava-línguas, parlendas e brincadeiras com sons ajudam a criança a perceber repetições, sonoridades, ritmos e jogos de linguagem. Esse contato fortalece a oralidade e alimenta a curiosidade pela forma como as palavras se combinam.

Presença da escrita no ambiente

Nomes nos objetos, listas da rotina, cartazes, livros acessíveis, bilhetes, registros feitos com o professor: tudo isso contribui para que a criança compreenda que a escrita faz parte da vida social. Ela observa, pergunta, reconhece usos, levanta hipóteses e começa a construir relações entre o que se fala, o que se escuta e o que se registra.

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Como planejar com intencionalidade?

O professor não precisa transformar esse campo em uma sequência artificial de atividades sobre “fala” ou “escrita”. O caminho está em olhar para o cotidiano com mais escuta pedagógica.

  • Observar: em que momentos as crianças falam com mais envolvimento? O que mobiliza perguntas, comentários, relatos e invenções?
  • Registrar: quais histórias, expressões, hipóteses ou brincadeiras revelam avanços na linguagem e na imaginação?
  • Devolver: como retomar as falas das crianças em novas conversas, propostas de reconto, dramatizações ou registros coletivos?
  • Ampliar repertórios: que livros, canções, imagens, poemas e gêneros textuais podem entrar na rotina para enriquecer a experiência do grupo?
  • Replanejar: o ambiente favorece a escuta e a circulação da palavra? Há tempo para conversas, leituras e explorações linguísticas com calma?

Esse movimento fortalece a prática e ajuda o professor a perceber que a linguagem não se desenvolve em momentos isolados. Ela se constrói na continuidade das interações, no vínculo com os livros, na qualidade das perguntas, na atenção às falas das crianças e na forma como o cotidiano é organizado. 

Experiências que favorecem “Escuta, fala, pensamento e imaginação”

As propostas abaixo não são modelos fechados, mas pontos de partida que podem ser retomados ao longo da semana, respeitando os interesses e ritmos do grupo.

Leitura diária com mediação sensível

Ler com frequência, escolher bons livros, variar gêneros e criar tempo para conversa após a leitura ajuda a criança a se familiarizar com a linguagem literária e com a estrutura das narrativas. Com os bebês, isso envolve voz, gesto, ritmo, entonação e presença. Com as crianças maiores, a conversa sobre personagens, cenas e possibilidades de desfecho aprofunda a experiência.

Reconto de histórias

Depois de ouvir uma narrativa, as crianças podem recontá-la oralmente, desenhar cenas, dramatizar personagens ou reconstruir acontecimentos com o professor como escriba. Ao recontar, elas reorganizam o enredo, escolhem o que destacar, preenchem lacunas e exercitam memória e imaginação.

Rodas de conversa com perguntas abertas

Conversas em torno de temas reais do grupo — um passeio, um conflito, uma curiosidade, uma história lida — ajudam a criança a construir argumentos e a perceber que pensar também pode ser uma experiência coletiva.

Brincadeiras simbólicas com enredo

Organizar espaços de faz de conta com materiais simples, objetos de uso social e possibilidade de livre criação favorece a linguagem em uso. A criança fala porque precisa sustentar a cena, negociar papéis e dar continuidade à brincadeira.

Jogos com palavras, sons e rimas

Cantigas, poemas, aliterações, parlendas e repetições dão corpo ao prazer verbal da infância. A linguagem ganha textura, ritmo e presença. E a criança percebe que as palavras também podem brincar.

O que observar nesse campo?

A observação envolve perceber:

  • Como a criança participa de conversas e escutas coletivas;
  • Como relata experiências e formula perguntas;
  • Como usa a linguagem nas brincadeiras simbólicas;
  • Como reage à leitura de histórias, poemas e canções;
  • Como manuseia livros e outros portadores de texto;
  • Como expressa ideias por meio de fala, gesto, desenho ou escrita espontânea.

Esses registros ajudam o professor a compreender os percursos do grupo e a criar propostas cada vez mais conectadas às experiências reais das crianças.

Planejar sem empobrecer a linguagem

O desafio desse campo está em preservar a densidade da linguagem no cotidiano. Planejar não significa antecipar a escolarização formal, nem reduzir a oralidade a respostas breves e a escrita a treino gráfico. Significa criar condições para que a criança viva experiências de linguagem com sentido, prazer, repertório e interlocução.

Um bom planejamento:

  • Oferece tempo para conversar e escutar;
  • Insere livros e textos na rotina com regularidade;
  • Valoriza as narrativas das crianças;
  • Acolhe a escrita espontânea como parte do processo;
  • Integra oralidade, imaginação e cultura escrita ao cotidiano;
  • Reconhece a linguagem como forma de participação e de construção de pensamento.

Quando isso acontece, a criança amplia o vocabulário, constrói memória narrativa, fortalece vínculos com a leitura e se aproxima da escrita de forma viva, curiosa e significativa.

Perguntas frequentes (FAQ)

O que é o Campo de Experiência “Escuta, fala, pensamento e imaginação”?

É um dos campos de experiência da BNCC para a Educação Infantil. Ele reúne práticas ligadas à oralidade, à escuta, à construção de narrativas, à imaginação e à aproximação com a cultura escrita, considerando que a criança desenvolve linguagem nas interações, nas histórias, nas conversas e nas múltiplas formas de expressão.

Como trabalhar esse campo com bebês?

Com bebês, esse campo pode ser desenvolvido por meio de cantigas, leitura de livros com mediação do adulto, brincadeiras com sons, nomeação de ações e objetos do cotidiano, conversas durante os momentos de cuidado e situações em que o professor reconhece e responde aos gestos, balbucios, olhares e vocalizações da criança.

Quais atividades favorecem oralidade e imaginação?

Rodas de conversa, contação de histórias, reconto, brincadeiras de faz de conta, parlendas, poemas, cantigas, dramatizações e criação coletiva de narrativas são experiências que favorecem a oralidade e a imaginação. O essencial é que a criança tenha repertório, interlocução e espaço para inventar, lembrar, perguntar e dizer.

Como a leitura de histórias contribui para esse campo?

A leitura de histórias amplia vocabulário, fortalece a escuta, apresenta estruturas narrativas, desperta perguntas e aproxima a criança da cultura escrita. Também favorece a imaginação, a construção de sentidos e o vínculo com os livros como objetos culturais presentes no cotidiano da Educação Infantil.

Esse campo se relaciona com a cultura escrita na Educação Infantil?

Sim. O campo inclui a aproximação progressiva da criança com livros, cartazes, listas, bilhetes, poemas, parlendas e outros textos que circulam socialmente. Essa experiência ajuda a criança a compreender que a escrita tem usos reais e faz parte da vida coletiva.

Quais materiais podem enriquecer esse trabalho?

Livros de literatura infantil, poemas, parlendas, cantigas, fantoches, imagens, cartões com nomes, listas, revistas, jornais, cartazes e materiais de faz de conta ajudam a enriquecer esse campo. O mais importante é que esses recursos estejam inseridos em situações vivas de leitura, escuta, conversa e imaginação.

Editora do Brasil S/A
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